terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas / Harold S. Kushner



Prefácio à edição brasileira

A vida não é justa. Coisas terríveis acontecem a pessoas boas e decentes. Os melhores entre nós adoecem, sofrem e morrem. Crianças inocentes contraem moléstias incuráveis. Adolescentes perdem a vida em acidentes absurdos. Bebes vêm ao mundo deformados. Jovens mães morrem de leu­cemia.
Mas por quê? Por que acontecem coisas ruins a pessoas boas? E, mais importante ainda, como reagir em face de tais tragédias?
Harold Kushner, nesta pequena obra-prima que talvez seja o mais compreensivo e compreensível livro de filosofia teológica já escrito, nos conduz numa busca de soluções para estas perguntas. E ao longo do caminho o leitor tem o privi­légio de entrever a alma do autor, uma alma que se encheu de amor e compaixão pela condição humana em decorrência da morte trágica e prematura do seu próprio filho, Aaron, aos 14 anos de idade.
Quando uma crise se abate repentinamente sobre nós ou sobre aqueles que amamos, ela desperta em nós uma série de emoções, desde o sentimento de culpa por aquilo que fizemos ou deixamos de fazer, até a revolta contra Deus por ter permi­tido que tal tragédia acontecesse. É fácil, é humano, questionar a bondade de Deus quando estamos diante de uma criança que está prestes a morrer. É fácil duvidar do poder divino, da assim chamada "onipotência" de Deus, nestas horas. Por­que, se Deus fosse realmente bom, Ele não faria as pessoas sofrerem. E se Deus fosse todo-poderoso, Ele impediria tais coisas de acontecerem.
Incontáveis filósofos e teólogos vêm tentando, através dos séculos, reconciliar estas ideias, porém muitas vezes as solu­ções apresentadas são dogmáticas demais e não trazem ne­nhum alívio. Tendo ele próprio se debatido com o dilema, o tormento e a angústia, Kushner chegou à conclusão de que a crença na onipotência de Deus é cruel e ilusória. O que ele propõe é uma abordagem diferente, e até certo ponto revolu­cionária. Não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofri­mento. Existe uma "aleatoriedade" no universo e a natureza é moralmente cega. Um terremoto não distingue entre pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não são "atos de Deus"; são acasos da natureza.
Portanto, diz Kushner, se queremos continuar a acre­ditar em Deus, precisamos parar de acreditar na Sua onipo­tência.
Bem, perguntamos, se Deus não é todo-poderoso, se Ele não pode interceder para impedir o sofrimento humano, então por que acreditar em Deus? Por que não jogar fora a religião de uma vez? A resposta de Kushner: porque é Deus que nos dá força, coragem e paciência para enfrentarmos os golpes da vida. Deus não é nosso adversário, mas sim nosso aliado. Deus é a fonte do nosso poder de suportar, nossa capacidade de superar e nossa determinação de continuar.
Perguntar "Por que eu?" ou "Como pôde Deus deixar que isto acontecesse comigo?" não leva a nada. É a pergunta errada, é uma pergunta que não tem resposta. E mesmo que pudéssemos descobrir quem foi o culpado... e daí?
Coisas ruins que acontecem a pessoas boas não podem ser explicadas e não podem ser compreendidas. A verdadeira pergunta é: o que fazer agora? Será que conseguimos aceitar o fato de que esta vida é imperfeita? Será que conseguimos amá-la assim mesmo, simplesmente porque é a única que temos? Será que conseguimos reconhecer a capacidade de perdoar e a capacidade de amar como armas que Deus nos deu para que possamos continuar a viver num mundo que não é de todo justo e perfeito?
A afirmação de fé do Rabino Kushner diante do seu trauma pessoal é um exemplo admirável e inspirador. Alguns, indubitavelmente, discordarão de suas ideias. Mas para mui­tos de nós que fomos esmagados pela tragédia, que buscamos desesperadamente um ponto de apoio quando um aconteci­mento cruel e absurdo fez desmoronar o nosso mundo, as palavras de Kushner são uma fonte de consolo e esperança.
Sem pretender nada mais do que compartilhar conosco a sabedoria de um homem "machucado pelo destino", este livro nos traz uma das mais belas, sensatas e humanas lições de vida de todos os tempos.
Rabino Henry I. Sobel

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