Prefácio à edição brasileira
A
vida não é justa. Coisas terríveis acontecem a pessoas boas e decentes. Os
melhores entre nós adoecem, sofrem e morrem. Crianças inocentes contraem
moléstias incuráveis. Adolescentes perdem a vida em acidentes absurdos. Bebes
vêm ao mundo deformados. Jovens mães morrem de leucemia.
Mas por quê? Por que acontecem coisas ruins a pessoas boas?
E, mais importante ainda, como reagir em face de tais tragédias?
Harold
Kushner, nesta pequena obra-prima que talvez seja o mais compreensivo e
compreensível livro de filosofia teológica já escrito, nos conduz numa busca de
soluções para estas perguntas. E ao longo do caminho o leitor tem o privilégio
de entrever a alma do autor, uma alma que se encheu de amor e compaixão pela
condição humana em decorrência da morte trágica e prematura do seu próprio
filho, Aaron, aos 14 anos de idade.
Quando uma crise se abate repentinamente sobre nós ou sobre
aqueles que amamos, ela desperta em nós uma série de emoções, desde o
sentimento de culpa por aquilo que fizemos ou deixamos de fazer, até a revolta
contra Deus por ter permitido que tal tragédia acontecesse. É fácil, é humano,
questionar a bondade de Deus quando estamos diante de uma criança que está
prestes a morrer. É fácil duvidar do poder divino, da assim chamada
"onipotência" de Deus, nestas horas. Porque, se Deus fosse realmente
bom, Ele não faria as pessoas sofrerem. E se Deus fosse todo-poderoso, Ele
impediria tais coisas de acontecerem.
Incontáveis filósofos e teólogos vêm tentando, através dos
séculos, reconciliar estas ideias, porém muitas vezes as soluções apresentadas
são dogmáticas demais e não trazem nenhum alívio. Tendo ele próprio se
debatido com o dilema, o tormento e a angústia, Kushner chegou à conclusão de
que a crença na onipotência de Deus é cruel e ilusória. O que ele propõe é uma
abordagem diferente, e até certo ponto revolucionária. Não é Deus que causa a
tragédia, a doença, o sofrimento. Existe uma "aleatoriedade" no
universo e a natureza é moralmente cega. Um terremoto não distingue entre
pessoas boas e ruins. Nem o câncer. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não
são "atos de Deus"; são acasos da natureza.
Portanto, diz Kushner, se queremos continuar a acreditar em
Deus, precisamos parar de acreditar na Sua onipotência.
Bem,
perguntamos, se Deus não é todo-poderoso, se Ele não pode interceder para
impedir o sofrimento humano, então por que acreditar em Deus? Por que não jogar
fora a religião de uma vez? A resposta de Kushner: porque é Deus que nos dá
força, coragem e paciência para enfrentarmos os golpes da vida. Deus não é
nosso adversário, mas sim nosso aliado. Deus é a fonte do nosso poder de
suportar, nossa capacidade de superar e nossa determinação de continuar.
Perguntar
"Por que eu?" ou "Como pôde Deus deixar que isto acontecesse
comigo?" não leva a nada. É a pergunta errada, é uma pergunta que não tem
resposta. E mesmo que pudéssemos descobrir quem foi o culpado... e daí?
Coisas
ruins que acontecem a pessoas boas não podem ser explicadas e não podem ser
compreendidas. A verdadeira pergunta é: o que fazer agora? Será que conseguimos
aceitar o fato de que esta vida é imperfeita? Será que conseguimos amá-la assim
mesmo, simplesmente porque é a única que temos? Será que conseguimos reconhecer
a capacidade de perdoar e a capacidade de amar como armas que Deus nos deu para
que possamos continuar a viver num mundo que não é de todo justo e perfeito?
A afirmação de fé do Rabino Kushner diante do seu trauma
pessoal é um exemplo admirável e inspirador. Alguns, indubitavelmente,
discordarão de suas ideias. Mas para muitos de nós que fomos esmagados pela
tragédia, que buscamos desesperadamente um ponto de apoio quando um acontecimento
cruel e absurdo fez desmoronar o nosso mundo, as palavras de Kushner são uma
fonte de consolo e esperança.
Sem pretender nada mais do que compartilhar conosco a
sabedoria de um homem "machucado pelo destino", este livro nos traz
uma das mais belas, sensatas e humanas lições de vida de todos os tempos.
Rabino Henry
I. Sobel
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